Review -Crash Team Racing Nitro Fueled

Era só uma questão de tempo até a Activision anunciar Crash Team Racing em versão reformulada, tal qual aconteceu com a trilogia clássica do marsupial, relançada na coletânea N. Sane Trilogy, cuja recepção foi massivamente positiva – e com razão, como apontei em minha análise da remasterização.

Tendo usado a retaguarda do trabalho que a Naughty Dog brilhantemente realizou nos anos 90, a Activision se aliou aos estúdios Vicarious Visions, Beenox e Toys for Bob para trazer duas franquias icônicas à atualidade: Crash e Spyro. O trio do dragãozinho roxo, aliás, é outro sinônimo de competência, como você também confere em nosso veredito.

O clamor dos fãs começou bem antes disso, e logo a publisher mexeu seus pauzinhos para estudar o mercado a fim de atestar a real recepção que esses jogos teriam pelos jogadores. A repercussão foi ovacionada em escala mundial até que a comunidade já erguia placas pelo próximo título a ser revisitado: Crash Team Racing.

Batizado de Crash Team Racing: Nitro-Fueled, o clássico segue a fórmula de Mario Kart nas corridas, unindo personagens presentes no mundo do mascote – vilões, inimigos, amigos, animais etc. – em partidas alucinantes com itens, colecionáveis, modo história e até hub explorável.

Muitas são as responsabilidades da desenvolvedora, nesse caso a Beenox, ao cuidar do gameplay da dirigibilidade – trata-se de algo muito mais “sensível” e técnico, do ponto de vista da física, do que o gênero de plataforma. Como tudo isso reverberou em Nitro-Fueled?

Além do remaster? Sim, cheio de novidades

Crash Team Racing: Nitro-Fueled oferece uma bacia de conteúdo inédito e já se justifica sob a premissa de não ser um mero upgrade gráfico. De todas as novidades, a mais notável é a customização, que inclui a carcaça do kart, pintura, adesivos e até pneus. É aqui que fica o nostálgico visual pixelizado da versão de PS4.

E você pode fazer isso quando der na telha enquanto estiver fora de uma corrida; a personalização não tem burocracia alguma e é livre de quaisquer impostos – sim, sem microtransações! Os itens à venda só podem ser adquiridos por meio da moeda do jogo. Portanto, isso cabe inteiramente a você, ao seu progresso e à sua dedicação, sem encostar na carteira.

O modo aventura é genuíno ao oferecer uma história com cinemáticas, linhas de diálogo e “rixa” entre determinados personagens – e palmas à Activision por ter investido na dublagem brasileira, que deu o tom certo na voz de tantas criaturas carismáticas e também merece aplausos.

Ao contrário do original, Nitro-Fueled permite que você alterne seu piloto a qualquer hora durante a jornada, e não escolha um que será o único até o final. Conforme mencionado, a remasterização diminui qualquer obstáculo burocrático nesse sentido.

Customização puramente estética

Se a equipe quisesse, poderia ir além no peso que a customização tem. O único fator que interfere na performance do seu kart é o piloto, que tem, basicamente, três categorias: leve, médio e pesado.

Até existe uma tabelinha com três atributos protocolares – velocidade, aceleração e curva – para cada um desses portes, mas o tipo do kart ou os pneus em nada alteram tais atributos; eles não melhoram ou pioram alguma coisa, relegando-se puramente ao propósito estético.

Você precisa conduzir o volante em tempo integral, precisa sentir a gostosura disso e, portanto, a dirigibilidade precisa ser bem polida

Por um lado, isso preserva as diretrizes do original; por outro, deixa passar uma oportunidade de ficar muito perto daquilo que Mario Kart 8 apresentou, por exemplo, em que você faz uma “build” do seu personagem de acordo com cada detalhe da montagem do kart. Em outras palavras, Crash Team Racing: Nitro-Fueled poderia ter ficado mais robusto nesse sentido.

Bate aquele pensamento em estilingue: poxa, implementaram a customização, que é algo tão legal, mas poderiam ter ido ainda além, sabe?

Volante ensaboado

Outro dia, comentei com um amigo que, num jogo de ação em mundo aberto, por exemplo, a dirigibilidade é um dos elementos, não o responsável por fazer o gameplay funcionar. O principal costuma ser a ação em si, as mecânicas de cobertura, a imersão, a história, o sistema de mira, a variedade de missões e por aí vai. Dirigir é, sim, muito importante, mas mais como ferramenta do que como obrigação.

Já num jogo de corrida não há outra opção. Você precisa conduzir o volante em tempo integral, precisa sentir a gostosura disso e, portanto, a dirigibilidade precisa ser bem polida. Crash Team Racing: Nitro-Fueled não ganhou o tanto de polimento que poderia ter recebido.

Novamente caímos numa faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que isso preserva a raiz do jogo, a falta de robustez, convenhamos, não é algo bem-vindo na modernidade. Foi exatamente isso que faltou na remasterização: deixar a dirigibilidade mais moderna.

O controle é ensaboado, quando o drifting é fechado demais com praticamente qualquer piloto/kart – isso acontece só com as motos em Mario Kart 8, por exemplo, o que faz mais sentido – e quando as curvas que você faz são mais eficientes do jeito tradicional, apenas guiando o volante para os lados, do que do jeito arrojado, quando o drifting tem que brilhar. Em Nitro-Fueled, ele não brilha e dá lugar a uma movimentação meio desengonçada, “leve” demais, sem a física que poderia ter ou sem aquela sensação mínima de peso. A mim, foi muito mais agradável usar pilotos de porte pesado.

Em contrapartida, isso também impõe um tipo de desafio diferente ao jogador, uma vez que dominar esse esquema meio “velho” também é recompensador – mas a falta de pureza na técnica aplicada à dirigibilidade será mais gritante do que a sensação de superá-la. Afinal de contas, você está dirigindo o tempo todo. Por mais que o game ofereça uma gama de atividades e tenha um conteúdo recheado, novamente: você está sempre dirigindo.

Outra ressalva é que Nitro-Fueled não oferece os já tradicionais modos em 60 quadros por segundo ou resolução para os consoles parrudos (PS4 Pro e Xbox One X). Num jogo de corrida, ter uma taxa maior de fps ajuda. O título tem HDR e é reproduzido em resolução aumentada nos dois aparelhos, mas não há qualquer opção dedicada no menu.

Online, local e muito conteúdo

Em contraste às observações apontadas, Crash Team Racing: Nitro-Fueled é uma delícia em recheio de conteúdo: o game permite que você embarque em partidas online ou em sessões privadas com amigos, além da tradicional jogatina local, em sofá.

As fases do modo aventura podem ser revisitadas várias vezes para cumprir objetivos diferentes, como encontrar as letras C, T e R, coletar diamantes roxos e desafiar o tempo para conquistar relíquias. Cumprir essas demandas se converte em recompensas de customização, dando aquele gratificante sentimento de progressão – medida em porcentagem, aliás, tal como no original.

O modo arcade local, por exemplo, inclui as copas, que podem ser jogadas no mesmíssimo formato das copinhas de Mario Kart, com quatro percursos – e ainda tem modo espelho, inclusive.

De qualquer forma, Crash Team Racing: Nitro-Fueled oferece uma tigela de conteúdo aos que quiserem buscar os 100% e traz trechos memoráveis em cinemáticas bem recriadas, orgulhosamente dubladas em nosso idioma e com respeito ao trabalho de origem. Não tem o mesmo impacto de N. Sane Trilogy e passa longe de qualquer Mario Kart, mas mantém o principal ingrediente de qualquer jogo: diversão.

“Crash Team Racing: Nitro-Fueled peca em técnica, mas atende ao propósito da nostalgia com muito conteúdo, em sabores misturados entre erros e acertos”

7.5
PS4

Crash Team Racing: Nitro-Fueled é um meio para que os fãs possam reviver o clássico de 1999, que assopra duas décadas de velinhas este ano. Trata-se de uma releitura competente em cumprir o propósito nostálgico, embora não tenha acertado em todos os temperos que usou nessa receita.

  • BOM 75%

A Beenox poderia ter mais “fome” para realizar um trabalho melhor na dirigibilidade e no peso das customizações, sem exagerar, sem tirar a magia do original e sem, é claro, embutir qualquer complexidade a um jogo que, sumariamente, se propõe a ser simples. Mas o toque de modernidade, que aqui foi, sim, aplicado, poderia ter mais ambição.

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